Apenas oito dos 23 distritos da província de Nampula possuem capacidade para realizar cirurgias em casos urgentes de doentes com complicações obstétricas, situação que obriga ao encaminhamento de pacientes das regiões sem estes serviços para o Hospital Central de Nampula (HCN).
Segundo Dinis Viegas, médico ginecologista e obstetra afecto àquela unidade sanitária, no primeiro semestre deste ano, o hospital registou a entrada de 140 casos de ruptura uterina, para além de ter identificado 200 fístulas obstétricas, situações decorrentes de complicações obstétricas.
Diante deste cenário, considerado preocupante devido à sua relação com a mortalidade materna e neonatal, Viegas deu a conhecer que os médicos de ginecologia, obstetrícia e pediatria elaboraram um plano estratégico para reverter a situação.
De acordo com a fonte, o plano está estruturado em três pilares, nomeadamente a optimização do rastreio pré-natal, a capacitação de recursos humanos e a revitalização do subsistema comunitário de saúde.
Dados disponíveis indicam que Nampula, sendo a província mais populosa de Moçambique, apresenta uma elevada taxa de natalidade, com uma média mensal superior a 25 mil nascimentos.
De acordo com o especialista, este número supera de forma significativa o de qualquer outra região do país, facto que impõe desafios, nomeadamente na gestão de complicações durante o parto, perante a escassez de recursos humanos para o efeito, tanto em quantidade como em especialização.
“As repercussões desta realidade são graves. A província regista os índices mais elevados de complicações obstétricas, com destaque para a ruptura uterina, considerada uma emergência médica catastrófica”, acrescentou.
Explicou que esta condição ocorre quando o útero se rompe antes da expulsão do feto, colocando a vida da mulher em risco iminente, dado que o órgão abriga, durante a gestação, cerca de 25% do volume sanguíneo materno.
Frequentemente, segundo explicou, o desfecho tem sido a morte do feto e hemorragia severa para a mãe.
Segundo a fonte, esta condição exige transporte e intervenção cirúrgica imediata numa unidade com condições para realizar a cirurgia.
Por fim, a fonte sublinhou que o trabalho de parto prolongado tem levado a um aumento preocupante de fístulas obstétricas. “A pressão prolongada da cabeça do feto contra o canal do parto provoca lesões que estabelecem uma comunicação anormal entre a bexiga e a vagina, resultando na perda involuntária de urina”, concluiu Viegas.
