Na província de Nampula, ser mulher e empreender é um acto de coragem e de caminhar todos os dias contra obstáculos estruturais, culturais e económicos que insistem em limitar sonhos. O acesso ao crédito continua a ser uma das maiores barreiras, travando iniciativas económicas e dificultando a expansão dos pequenos negócios, sobretudo para as mulheres das zonas rurais.
Muitas destas empreendedoras sobrevivem no sector informal, longe do alcance do sistema bancário e de programas de apoio institucional. Para além disso, carregam o peso de uma dupla jornada: gerem os seus negócios ao mesmo tempo que cuidam da família e das tarefas domésticas, num equilíbrio difícil de manter.
É o caso de Isabel Nunes, empreendedora há 23 anos. Começou com dificuldades, enfrentando entraves burocráticos e falta de documentação, mas não desistiu. Hoje trabalha como cabeleireira, modista e artesã, combinando o corte e costura com outras actividades. Isabel conta que, no início, precisou de ajuda para ultrapassar os entraves administrativos e que, com persistência, conseguiu abrir caminho.
Segundo ela, nos últimos anos tem-se notado um aumento do número de mulheres que procuram o empreendedorismo como alternativa de subsistência e independência financeira.
“Vejo, sobretudo em feiras e eventos locais, muitas mulheres empenhadas em conquistar a sua independência financeira. Eu trilhei esse mesmo caminho”, conta.
No entanto, Isabel reconhece que o acesso ao financiamento continua a ser uma grande dificuldade. “Mesmo reconhecendo as elevadas taxas de juros, já tentei obter através das empresas de microcrédito, mas os requisitos eram complicados e, muitas vezes, os pedidos não eram aprovados”, explicou.
Apesar dos obstáculos, Isabel recusa-se a desistir e tem procurado inspirar outras mulheres. Numa das formações que ministrou na sua igreja, encorajou jovens a não esperarem por ajuda externa e mostrou que, com criatividade, é possível.
“Com um pedaço de papelão e retalhos de tecido, é possível criar peças valiosas. Mulher, levante-se e mãos à obra. Busque orientação. Não espere que algo lhe seja dado”, encorajou.
Outra voz que ecoa esta luta é a de Elina Eciate, empreendedora há mais de cinco anos. Também jornalista, Elina admite que já pensou em desistir. Embora o mercado pareça promissor, o retorno financeiro nem sempre corresponde às expectativas.
No início, apostou nas vendas online, exigindo metade do pagamento antes da entrega. Mas a desconfiança dos clientes obrigou-a a mudar de estratégia. Hoje aposta em produtos à pronta entrega, permitindo que os clientes vejam e avaliem antes de comprar.
Elina lembra ainda os riscos que muitas mulheres enfrentam, como aconteceu com as chamadas “mukheristas”, que, em negócios transfronteiriços, sofreram perdas e tiveram de devolver dinheiro aos clientes. Ainda assim, não considera desistir. Para ela, empreender deixou de ser uma escolha e tornou-se uma necessidade.
“Empreender permitiu-me garantir o sustento da minha família, sobretudo quando os salários falham ou atrasam”, explica.
Para as mulheres que hesitam em começar, Elina deixa um conselho para que não esperem condições perfeitas. “Hoje, com um telemóvel e acesso à internet, é possível começar. Basta ir às lojas, fotografar os produtos, divulgar e vender. O importante é dar o primeiro passo”, afirma.
As histórias de Isabel e Elina espelham a realidade de muitas mulheres em Nampula, num percurso de resistência, criatividade e resiliência. São histórias que provam que, mesmo perante barreiras, há quem encontre caminhos para avançar.
