O meu último adeus ao Mestre Justino Cardoso

O meu último adeus ao Mestre Justino Cardoso

Por: Jorge Ferrão

A manhã deste 17 de Agosto, ensolarada e aconchegante, retirou, do nosso já empobrecido convívio, uma das figuras culturais que mais marcaram Nampula no pós-independência, o grafista e cartunista Justino Cardoso.

Talento multifacetado, enveredou também pelo universo das artes cénicas e retratou os nossos excessos e absurdos. Autodidata, construiu o seu caminho com as próprias mãos e deixou o seu nome tatuado em milhares de gravuras, brochuras, alguns livros colectivos e exposições internacionais, muitas dessas obras feitas a tinta-da-china, testemunhos de um talento singular e de uma época que ajudou a retratar.

Justino viveu sem mordomias, nem luxos. Aliás, sempre foi avesso à ostentação. Nunca sentiu necessidade de exibir valores, excentricidades ou qualquer forma de luxo. Escolheu uma vida simples e pacata, fiel à sua arte, à sua maneira de estar no mundo e à sua cidade de Nampula, em cujos arredores sempre viveu. Talvez por isso tenha conseguido aquilo que poucos conseguem, deixar uma marca profunda sem nunca precisar de grandes palcos para anunciar a sua presença.

Nampula perde um dos seus filhos mais nobres, dotado de um profundo humanismo. E os cafés da cidade perdem também um dos seus mais fiéis frequentadores, testemunhas silenciosas de tantas conversas, desenhos, encontros e histórias.

Fica a obra espalhada pelo mundo e a memória que o tempo nunca conseguirá apagar. Ficará mais pobre a cidade que ele ajudou a desenhar com o seu talento e mestria.

Que a sua alma repouse em paz. A nossa gratidão por tudo o que fizeste pelo país, pela banda desenhada e por teres escutado tudo isto ainda em vida. (X).