As Linhas Aéreas de Moçambique (LAM) estão a cobrar, na compra de bilhetes de passagem emitidos através da sua plataforma digital, o valor em randes, moeda sul-africana, sob indignação dos seus clientes, que dizem não perceber a motivação da companhia de bandeira.
Tal cobrança faz com que, por cima do valor real da passagem, seja aplicada uma taxa, porque a moeda de referência é estrangeira e não o metical, mesmo que o bilhete seja para um percurso doméstico.
“Não entendo porque é que temos de fazer o pagamento em rand. Isto quer dizer que os valores estão a cair numa conta na África do Sul, quando eu estou em Moçambique e estou a pagar a uma companhia nacional para um percurso doméstico”, disse Zainadine Abdul, um cliente da companhia.
O economista Joaquim Alferes considera que a recente medida adoptada pela empresa Linhas Aéreas de Moçambique (LAM), de venda de bilhetes de passagens domésticas via online em moeda sul-africana, com cobrança de taxas extras por parte dos bancos comerciais, é uma tentativa de “dolarização” forçada do rand.
Segundo o economista, a medida envolve três questões, sendo a primeira relacionada com a gestão das dívidas colossais, especialmente em relação a fornecedores internacionais de combustíveis.
De acordo com a fonte, a segunda questão da “dolarização” do rand visa proteger o valor dos pagamentos, evitando perdas em caso de desvalorização da moeda local, devido à existência de dívidas significativas.
Entende que a medida tem a ver com a mitigação do risco cambial, sustentando que, ao cobrar em moeda estrangeira, a empresa busca assegurar a manutenção do poder de compra, especialmente para o pagamento de compromissos com fornecedores.
“Isso impacta na sociedade, gerando possíveis aumentos de preços e custos. Além disso, a exclusão financeira torna-se um desafio, pois indivíduos sem acesso a contas bancárias podem ser forçados a recorrer ao mercado informal para obter a moeda estrangeira, sujeitando-se a taxas desfavoráveis, além da inflação indirecta, que também é um factor relevante, dado que as flutuações cambiais da moeda estrangeira influenciam directamente o preço dos bens e serviços”, explicou.
O terceiro ponto, de acordo com o economista, tem a ver com a “erosão” da confiança social. “A aceitação da dolarização pode variar, impactando diferentes grupos da sociedade de formas distintas, sendo que alguns podem adquirir produtos e serviços sem restrições, enquanto outros enfrentam dificuldades, gerando desigualdades. Além disso, a legalidade dessa prática precisa ser considerada”, destacou Alferes.
Uma fonte segura, afecta à LAM, que, no entanto, não quis ser identificada, diz que a medida decorre do facto de o Banco de Moçambique (BM) ter alegadamente suspenso a emissão de bilhetes online e não em bilhetes electrónicos, como está a ser referido nos bastidores.
“Por conta disso, arranjou-se um provedor de serviços internacional que, quando cobra, faz ajustes de acordo com a oscilação cambial. Daí que nós praticamente não temos controlo, porque tínhamos um provedor de serviço nacional e, quando se cobrava, havia reconciliação, sendo tudo em moeda nacional. Mas, tratando-se de um servidor internacional, o mesmo é cobrado lá e depois vem para a LAM. Sendo assim, a única saída de cobrança desses valores está praticamente na África do Sul”, explicou.
