O arcebispo de Nampula e presidente da Conferência Episcopal de Moçambique, Dom Inácio Saure, teceu duras críticas à forma como tem sido conduzida a resposta ao conflito armado em Cabo Delgado, defendendo que a solução não pode limitar-se à via militar, mas deve assentar no desenvolvimento integral e na dignidade humana.
Falando esta quarta-feira, em Bruxelas, no Parlamento Europeu, no âmbito de um encontro promovido pelo programa “Hungary Helps”, sob o tema “Uma Guerra Sangrenta no Silêncio em Moçambique”, Saure alertou que o conflito, apesar de menos visível nos grandes centros, continua activo e com impactos profundos nas populações.
Segundo explicou, embora os insurgentes tenham passado a actuar sob a bandeira do Estado Islâmico desde 2021, a religião não constitui a principal causa da guerra. Na sua perspectiva, os interesses em torno dos recursos minerais figuram entre os factores centrais que alimentam a instabilidade na província.
Ao descrever a evolução do conflito, o prelado sublinhou que a violência se transformou ao longo do tempo. Aliás, enquanto algumas vilas aparentam relativa segurança, registando elevada concentração de deslocados, as zonas rurais continuam a ser palco de ataques e confrontos, marcados por extrema violência.
Dados avançados por Saure indicam que o conflito já provocou mais de seis mil mortes e milhões de deslocados internos, sendo a maioria mulheres e crianças.
A província de Nampula, acrescentou, acolhe actualmente centenas de milhares de pessoas deslocadas, muitas das quais vivem em famílias de acolhimento já vulneráveis, agravando a pressão sobre os recursos locais.
No que diz respeito ao perfil dos atacantes, referiu tratar-se não apenas de combatentes estrangeiros, mas também de jovens moçambicanos recrutados em contextos de pobreza e exclusão social.
O arcebispo chamou ainda a atenção para a crise humanitária em curso, destacando os desafios ao nível do abrigo, saneamento e acesso à educação. Segundo afirmou, os modelos actuais de reassentamento mostram-se insuficientes, defendendo a criação de soluções habitacionais permanentes e integradas nas comunidades, bem como investimentos urgentes em saneamento básico, face aos surtos recorrentes de cólera em Nampula.
Neste contexto, destacou o papel da Igreja Católica, que, segundo disse, permanece no terreno mesmo em zonas onde outras instituições se retiraram por questões de segurança. As paróquias, segundo afirmou, têm funcionado como centros de acolhimento e apoio, incluindo assistência psicossocial às vítimas do conflito, além da distribuição de ajuda humanitária, muitas vezes em locais de difícil acesso.
