A província de Nampula registou, ao longo dos últimos anos, uma expansão assinalável do ensino superior, com o sector privado a assumir um papel crucial no processo, porém mantém-se ainda o desafio da distribuição geográfica desigual deste subsistema.
A constatação é do professor da Universidade Rovuma (UniRovuma), Adelino Assane, e foi feita nesta quarta-feira, na cidade de Nampula, durante a sua apresentação do tema sobre “A expansão e acesso equitativo no ensino superior”, na Conferência Provincial do Ensino Superior.
No seu entender, vive-se uma expansão assimétrica do ensino superior, cresce-se em número, mas não necessariamente em equidade.
As principais barreiras encontradas nesse processo de expansão e acesso equitativo são geográficas, sendo que, em termos de instituições de ensino superior, tanto ao nível de sedes como de polos, apenas cinco distritos estão cobertos, enquanto os restantes continuam excluídos do acesso presencial.
De acordo com o docente, mesmo nos distritos com delegações de estabelecimentos de ensino superior, muitos estudantes são oriundos de regiões que distam mais de 50 quilómetros em relação aos pontos de oferta.
Segundo ele, estes estudantes enfrentam desafios relacionados com a falta de transporte público, degradação das vias de acesso, para além de barreiras económicas, tendo em conta que as propinas no sector privado, por exemplo, podem variar de 15 mil a 40 mil meticais por semestre, valores que os considerados desfavorecidos não têm condições de suportar.
Nas universidades públicas, apesar de as propinas serem relativamente acessíveis, há que destacar os custos de alojamento, alimentação e transporte, que são proibitivos para a maioria dos cidadãos que pretendem prosseguir com os estudos no ensino superior.
Segundo ele, estima-se que quase 70% das famílias da província de Nampula não têm capacidade para suportar os custos acima mencionados.
Assane elencou outras barreiras de natureza académica, ligadas aos graves défices no ensino secundário, que resultam em altas taxas de reprovação por parte dos estudantes universitários nos primeiros anos.
“Isso quer dizer que a qualidade de base é particularmente baixa, tanto nas escolas secundárias públicas como privadas”, sustentou.
A fonte destacou ainda as barreiras socioculturais, nomeadamente normas que não valorizam a educação superior, fundamentalmente quando se trata de mulheres, priorizando-se casamentos prematuros, assim como o trabalho agrícola, para além de barreiras institucionais decorrentes da centralização dos processos de admissão.
“Como é que nós divulgamos as vagas? Através da internet, rádios, mas há comunidades que não têm acesso a essas plataformas. E como ficam?”, questionou.
Além disso, disse que foram encontradas algumas fragilidades nas delegações ou polos das universidades ao nível dos distritos.
Esses polos, segundo a fonte, funcionam em infra-estruturas precárias, com poucos ou sem nenhum laboratório ou biblioteca, para além da carência de docentes, sendo que muitos deles têm de deslocar-se da capital provincial para aqueles locais.
Para corrigir este cenário, Assane propõe, como estratégia, a expansão da infra-estrutura física, políticas afirmativas de financiamento, entre outras acções.
Já o orador que abordou o tema sobre “A qualidade e relevância do ensino superior”, Bonifácio da Piedade, falou da Inteligência Artificial, que, segundo ele, apresenta um novo paradigma sobre o papel do professor e do estudante.
A esse respeito, a perspectiva de um professor experiente sugere que a função do docente pode concentrar-se em auxiliar o aluno a organizar e interpretar as informações disponíveis. Por fim, vincou a necessidade de capacitação dos professores para o uso das ferramentas de Inteligência Artificial, reconhecendo tratar-se de um processo em curso, que precisa de ser ampliado.
